segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Eucalipto, a árvore do regime

No final do regime ditatorial, o eucalipto ocupava em Portugal uma área próxima dos 200 mil hectares (IFN 1968/1980). No início da década de 90, a área ocupada por esta espécie pouco ultrapassava meio milhão de hectares (IFN 1990/92). Passados 40 anos, a área ocupada por esta espécie vai já a caminho de um milhão de hectares.


 Da quarta posição em área por espécie florestal nos anos 70/80, o eucalipto ocupa agora em Portugal o primeiro lugar, bem destacado das demais espécies silvícolas.

Atualmente, Portugal detém a quinta maior área a nível mundial ocupada com plantações desta espécie.

Plantações de eucalipto no mundo
Fonte: Florestas e eucaliptos – mitos e realidade; João A, Soares, Grupo Portucel Soporcel, 2006

Quanto à produtividade média anual, apesar do conhecimento que tem sido produzido e das técnicas atualmente disponíveis, não é registada hoje um valor superior ao registado há 40 anos atrás.

Em termos globais, a aposta nacional nesta espécie foi concretizada em quantidade de área, não em qualidade por área.

Poder-se-á pensar que a aposta decorre de uma favorável evolução dos preços pagos à produção de rolaria de eucalipto à porta da fábrica. Todavia, no que respeita a essa evolução, tendo por base o ano de 2004, em 1975 registava-se um valor próximo dos 80 euros por metro cúbico, atingindo-se um valor máximo de cerca de 100 euros no início da década de 90, altura a partir da qual o preço regrediu para o valor de cerca de 50 euros registado em 2005. Os dados mais recentes, publicados pelo INE, apontam um valor em 2012 ligeiramente abaixo do registado no ano 2000.

Evolução do preço da rolaria de eucalipto 1975/2005
Fonte: Estratégia Nacional para a Floresta; ICNF, 2014

A aposta em quantidade de área está assim associada a uma estratégia de controlo de preços em baixa.

Em todo o caso, têm sido evidentes os acrescidos nos preços das despesas correntes da atividade silvícola, seja nos serviços prestados à produção, na energia e lubrificantes e nas plantas.

O efeito da evolução dos preços face às despesas na produção de rolaria de eucalipto é bem visível no gráfico seguinte, comparando apenas o conjunto de oito anos, entre 2003 e 2011.

Fonte: Olhos nos Olhos: Causas e consequências dos incêndios TVI24, 2013.

Em termos de procura, das quatro empresas industriais com atividade no final da década de 90, passou-se para apenas duas, sendo que uma delas é responsável por quase 80% da procura atual.

Apesar de ser difundido como um bom investimento florestal, o facto é que a área de autoabastecimento de eucalipto para a indústria papeleira tem vindo a diminuir significativamente. Só entre 2002 e 2011, a área de eucaliptal na posse das empresas de celulose regrediu mais de 33 mil hectares. Não se trata de substituição de área menos produtivas por áreas de maior produtividade, antes sim de desinvestimento.

Fonte: Boletim Estatístico 2011. CELPA, 2012.

Melhor será dizer que, a transferência se reflete apenas no risco, que passa da indústria papeleira para as centenas de milhares de proprietários privados.

Curiosamente, os dados aqui expressos, concretamente os que influenciam os rendimentos da produção florestal, não têm merecido tomadas de posição por parte das organizações que a representam, nem tão pouco das autoridades políticas. Tudo parece pois ir bem, quer na estratégia política, nos mercados da rolaria de madeira de eucalipto, na gestão dos eucaliptais em Portugal, no desenvolvimento rural e no ordenamento do território.



No que respeita às florestas e ao setor florestal, sabemos os que as estatísticas refletem nestes últimos 40 anos: Seja na área global de floresta, seja no rendimento dos proprietários florestais, seja no emprego rural e setorial, seja no êxodo rural, seja na evolução do peso económico das florestas, ou do peso do setor no PIB, ou na propagação dos incêndios e na proliferação de pragas e de doenças.

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